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Retratos de Mim

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A Blogger

22
Abr17

O dia em que tudo mudou


A Ribatejana

Queria começar este meu blog com uma história alegre sobre mim, mas a verdade é que neste último ano, só tenho memórias menos boas para contar, por isso resolvi que iria falar sobre a minha vida desde o cancro.

 

Estamos em Agosto de 2015, deitada na cama pc sobre os joelhos, vejo imagens e conversas no meu facebook e delicio-me com alguns comentários mais humorísticos, de repente,  sem saber porquê, decido efetuar palpação mamária, como aliás vinha sempre fazendo há  já alguns anos, devido ao facto de ter fibromas, assim sendo e a um dado momento,  a  minha mão escorrega sobre a mama esquerda, e como de costume  palpo em redor da aurélia, sinto  então um alto, é duro, não sei porquê mas começo a transpirar, não é grande, mas este nódulo para além de novo,  em nada se assemelha aos outros, não escorrega entre os meus dedos, não é elástico, é muito imóvel, está fundo e parece uma pedra, chamo pela minha mãe que do sofá responde ao meu alarmismo de uma forma pacificadora, pois para ela habituada há muito a sofrer com quistos benignos, este era apenas mais um nódulo sem importância, diz-me contudo que deveria contactar um médico, se eu quisesse o especialista dela, mas retraio-me, o médico trabalha no privado e eu estava sem conseguir trabalhar há mais de dois anos, decido então  ir ao meu médico de família, este marca-me uma ecografia e mamografia, a qual realizo duas semanas depois na Santa Casa da Misericórdia de Benavente.  

Estamos no fim de Agosto à minha frente a técnica realiza a mamografia, isto após lhe ter falado sobre o quisto novo, ela também o sente, é pequeno mas muito duro, e por isso perfeitamente palpável, manda-me sair de novo, aguardo no corredor pela ecografia mamária, não esperei muito tempo, chamam-me outra vez, entro, dispo-me da cintura para cima e deito-me na marquesa, onde um médico radiologista grava algo sobre a última pessoa que viu,  vira-se então para mim e pergunta o que se passa, digo-lhe que sinto um quisto novo,  que me parece suspeito, pois ao contrário dos outros é imóvel, o médico observa os contornos do nódulo, perguntando-me se não  sofri nenhuma pancada, pois aquele quisto  não se assemelhava com nada, como nada? Não percebo muito bem o que queria dizer com aquilo. Saio da Misericórdia com um relatório perfeitamente disparatado, como viria a perceber mais tarde, e onde o radiologista classificara a mama esquerda de pouco risco para nódulos malignos, embora com uma ressalva onde sugeria uma punção ao nódulo novo.

Estamos no início de Setembro, naquela manha tenho nova consulta com o médico de família, entro e mostro-lhe o relatório, após efetuar a sua leitura e saber que teria consulta com o meu ginecologista no mês seguinte, diz-me que não acredita que seja maligno, pois nada parece indicar que o seja, mas aconselha-me a mostrar os exames ao outro médico, assim fiz.

Outubro 2015, estou no hospital de Vila Franca de Xira, aguardo pelo meu nome, finalmente e após esperar uma hora, lá me chamam, entro no consultório do meu ginecologista com os meus exames na mão, este não acha muita piada ao facto do médico de família lhe ter passado a pasta, por assim dizer, contudo e após ler o relatório, decide efetuar palpação mamária, pergunta-me se dói, “a mama não, mas o braço sim “ lembro de responder, “ótimo” responde o asno, “se dói é porque é benigno, se continuar a crescer volte a fazer exames daqui a seis meses”

Janeiro de 2016 estou no duche, o nódulo cresceu e veio a superfície, a pele escureceu, sinto os contornos do quisto, está maior, mais duro e aderente à pele, mostro-o mais tarde à minha mãe e à minha irmã, parecem-me estranhamente alarmadas, não gostei, esperava palavras de desdramatização, mas conseguiram assustar-me, marco consulta para o especialista da minha mãe, vamos ver, não há-de ser nada, minto a mim mesma.

 

Fevereiro de 2016, estamos a meio do mês, tenho consulta marcado em Lisboa com um especialista em senologia, um médico de renome, considerado um dos melhores naquela área, estou tranquila, decido ir sozinha e de autocarro, passaria antes pelo Centro Comercial Vasco da Gama,  a fim de comprar umas coisitas aos meus sobrinhos, estou no autocarro e recebo um telefonema do meu pai que vinha do Algarve, parece-me chateado, queria que tivesse esperado por ele, pois teria ido comigo à consulta,  mas assim sendo, iria ter comigo à porta do consultório médico, mas afinal porquê tanto drama! Seria apenas mais uma consulta, não percebia o porquê de tanto zelo.

São quinze horas encontro-me com o meu pai como combinado, entramos juntos no consultório, aguardo alguns minutos até que chamam por mim, entro num gabinete onde um senhor de meio idade com barba, me convida a sentar, gosto de seu aspeto, olhos sérios e ar compenetrado, pergunta-me porque ali estou, mostro-lhe os exames e o relatório, após ouvir-me atentamente manda-me despir da cintura para cima, assim fiz, o medico faz a palpação sempre tentando conversar, é simpático, mas qualquer ali parece deslocada, é o seu olhar, algo não está bem, vem então o momento da verdade, pede de novo que me sente e com uma voz séria diz-me, nunca mais esquecerei as suas palavras “ Esse nódulo tem 99% de risco de ser um cancro, lamento mas não há outra forma lhe de dizer isto, mesmo que quisesse” Sinto um choque, uma onde de transpiração atravessa o meu corpo, não estou a ouvir bem, esta história não é a minha, sinto-me deslocada, estou a assistir a um filme, mas não quero ser a personagem principal, o médico pergunta-me se tenho seguro, claro que não tenho, nunca na vida pensei que seria preciso, e não me encontrava numa situação que me possibilitasse pagar um seguro, o médico pergunta-me de novo o que pensava fazer, mas o meu ar completamente acabado deve-lhe ter dado pena, pega então no telefone e liga para o IPO, ouço-o dizer alguma coisa a um colega, compreendo ainda a palavra estadio três B, sem saber do que falava.

 

Estamos no fim de Fevereiro de 2016, entro pela primeira vez no IPO de Lisboa, com o sentimento de que aquela seria para sempre a minha segunda casa, dirijo-me ao piso central, estou na clínica da mama, caminho sem ter bem noção do que me está a acontecer, procuro integrar-me da realidade, sim sou eu que ali estou, sim aquela é a minha vida agora, contudo não consigo reagir, dirijo-me às rececionistas com uma carta do meu especialista em senologia na mão, entrego-a, lembro-me de mencionar que esta era dirigida ao Doutor João Vargas Moniz.

Passo mais de uma hora à espera, verifico estupefacta que ali se juntam muitas mulheres de todas as idades, o cancro maldito não poupa nem as mais jovem, finalmente sou chamada, entro então no gabinete do médico, é novo, talvez mais novo do que eu, fico outra vez nua da cintura para cima enquanto o médico efetua palpação mamária, não sinto nada, não ouço nada, estou sob a anestesia do choque, vejo-me novamente sentada à sua frente, sem me lembrar de me ter vestido, mas agora estou bem atenta, sou toda ouvidos e percebo perfeitamente quando me fala em operação, mas talvez só depois da químio,” isto se a biopsia der positivo para cancro ” diz-me de uma forma simpática, mas eu não tenho dúvidas é maligno , sinto que o é.

Entramos do mês de Março de 2016, estou envolta em um turbilhão de exames, biopsias para cá, RX para lá, centigrafia óssea, tudo para verificar o tipo e a agressividade do tumor, ou procurar possíveis metástases. Estamos a meio do mês, recebo finalmente o relatório da biopsia, não fico chocada ao ouvir a palavra carcinoma invasivo da mama, Já o tinha adivinhado, mas palavras como estadio II, grau II, ou ainda 100% estrogénio, ki27 com 25% e her2 negativo, são de facto difíceis de compreender, contudo sou teimosa,  tenho sede de saber, não posso viver sem conhecer o inimigo, pois o desconhecido é uma tormenta para mim. Começo a pesquisar na net, tudo o que são termos médicos para cancros da mama, aos poucos  vou  identificando as palavras que até então me eram totalmente desconhecidas, percebo que o bicho mau se alimenta do meu estrogénio, que depende dele para crescer, percebo ainda que ser her2 negativo é um pouco melhor que ser positivo, mas o que entendo sobretudo, é que o meu tumor já tem 3 cm e que terei que efetuar quimioterapia, que o meu cabelo irá cair, que o maldito pode se ter espalhado já no meu corpo, invadindo-o sem piedade.

Estamos no final do mês de Março, hoje tenho consulta de grupo, para quem não sabe consulta de grupo refere-se a uma reunião com o grupo de médicos, que me vai seguir e operar nos próximos meses, entro na sala muito nervosa, pois  ainda nada sei sobre os exames efetuados, numa mesa estão sentados vários médicos que discutem entre si como se eu não estivesse lá, aguardo um momento absorvida nos meus pensamentos, de repente uma médica levanta-se e palpa-me a mama e a axila, pergunto-lhe pelo resultado da centigrafia, do RX e da Ressonância Magnética, e fico de facto mais tranquilo quando me diz que estão bem, tudo me parece mais fácil agora, vou lutar e vou vencer.

 

 

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